Por várias vezes na vida, me senti cansada. Em algumas delas, o corpo dava alguns sinais de que não gostava do meu ritmo de vida. Era o sono em horas inadequadas, lentidão em reflexos, falta de coordenação. Provavelmente, era somente o inicio da indignação do meu corpo com o tratamento que recebia . As xícaras de café se multiplicavam. Percebi que estava num momento critico há um ano, quando esqueci um compromisso inadiável. Acabei perdendo minha agenda e com ela, tantos outros compromissos inadiáveis não aconteceram.
E não importava o quanto tentasse me organizar, as minhas faltas e alienações iam piorando, acumulando, ofendendo os atingidos. Você trouxe? Você vai? Por que você não foi? Cadê? Você lembra-se da Cacilda? Não trazia, não ia, não sabia e não lembrava. Olhava no espelho por ser obrigada a trabalhar perfeitamente maquiada por cima de minhas olheiras ancestrais.
Chovia e eu perdia o guarda chuva. Estacionava e tinha de conferir se havia trancado a porta. Saia de casa e voltava para buscar a bolsa.
Acreditei ter chegado ao auge da minha autonegligência expandida ao mundo quando dei seta ao manobrar o carro na garagem de casa. Mas não. Esqueci aniversários queridos, marquei dois encontros para o mesmo horário em bairros diferentes, paguei multas de atraso. Um dia, ia sair de uma sala e bati na porta pelo lado de dentro. Sucessão de atitudes desconexas. Ia me tornando cada vez menos funcional, mais automatizada. O cansaço ia me carcomendo, retirando de mim cada fragmento que me tornava um ser social. Já não sentia. No princípio, eu ainda lutava. Ia buscar o esquecido, pedia desculpas, recompensava, refazia, tentava reorganizar.
Aos poucos, fui me desapegando.
Melhor, fui sendo desapegada. Sai do emprego, oito horas do dia a mais para mim e a libertação do espelho. Vendi o carro, uma prestação a menos para pagar e nenhum bem a zelar. Parei de ir aos grupos: os voluntários, os de oração, as reuniões de condomínio, as ginásticas e a terapia. Abandonei a faculdade e o futuro profissional, e a vida ficou livre para mim. Perdi o celular e cancelei o telefone de casa. Descalça, sai de casa e deixei a chave. Esqueci o nome dos colegas, depois dos amigos, do namorado, dos familiares e por fim, o meu nome. Esquecidos os concretos, os nomes abstratos fugiam. Como não podia deixar de ser, sublimei-me.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
A agonia do frio
Cada cinza traz questões inadiáveis. Como o fim do mundo, como o fim da vida. Principalmente, as contas que se vencerão. Ou me vencerão, nunca se sabe. Tentando entender.
Tentando pensar e esquecer.
Esquecimento útil, caloroso, morrinhento. Como uma tarde suada, abafada. Como um final de dia, final de churrasco, de piscina. Um dia de exageros e um final de tarde deplorável. A comida embrulha, sente-se um gosto amargo que nada lembra a deliciosa carne de mais cedo. A ressaca em nada se parece com a cerveja gelada e alemã holandesa austriaca de momentos antes. E as pessoas, tão ansiadas pela saudade, são memórias. Devem ter sido vistas e vividas, mas por tempo demais. Nesse tempo além, ficariam mais visíveis, mais humanas, menos importantes do que eu deveria me lembrar. Pequenas demais, humanas, merda. So servem para me atentar ao fato de minha desimportância e de como sou igual a elas.
Não se pode passar tempo demais com nada, cherrie.
O churrasco perdeu o gosto, a bebida incha até a cabeça, sente-se uma pressão indecorosa. Na barriga,inclusive. No fígado, principalmente. Ou seria pâncreas? Desculpa, não me lembro mais onde doiria. E a pele, lastimada pelo sol. Em tons de vermelhos e marrons doloridos e arrependiveis. E as pessoas, e o esquecimento. Tanto abuso, pra quê? Tanto excesso!
Pra quê? A tentativa de esquecimento traz mais forte a sensação de vazio. A murrinha do que vai saindo abre alas para o sofrimento existencial. De onde viemos, quem somos, para onde vamos. E onde estaria e para onde vai o nosso existir. As mesmas pessoas excessivas, com as mesmas novidades. Adoraria um terremoto nesse domingo.
Nasceu o bebê de numero sete milhões. Em algum lugar da Asia, como a maioria dos bebês, presumo. E não estava no churrasco que não existiu. E não foi assado e não há esquecimento total. Abre-se espaço para os problemas de sempre. Acima de tudo, nossa feiúra. Nossa existência feia, calada. A questão maior, a desimportância. Todos substituíveis.
Tentando pensar e esquecer.
Esquecimento útil, caloroso, morrinhento. Como uma tarde suada, abafada. Como um final de dia, final de churrasco, de piscina. Um dia de exageros e um final de tarde deplorável. A comida embrulha, sente-se um gosto amargo que nada lembra a deliciosa carne de mais cedo. A ressaca em nada se parece com a cerveja gelada e alemã holandesa austriaca de momentos antes. E as pessoas, tão ansiadas pela saudade, são memórias. Devem ter sido vistas e vividas, mas por tempo demais. Nesse tempo além, ficariam mais visíveis, mais humanas, menos importantes do que eu deveria me lembrar. Pequenas demais, humanas, merda. So servem para me atentar ao fato de minha desimportância e de como sou igual a elas.
Não se pode passar tempo demais com nada, cherrie.
O churrasco perdeu o gosto, a bebida incha até a cabeça, sente-se uma pressão indecorosa. Na barriga,inclusive. No fígado, principalmente. Ou seria pâncreas? Desculpa, não me lembro mais onde doiria. E a pele, lastimada pelo sol. Em tons de vermelhos e marrons doloridos e arrependiveis. E as pessoas, e o esquecimento. Tanto abuso, pra quê? Tanto excesso!
Pra quê? A tentativa de esquecimento traz mais forte a sensação de vazio. A murrinha do que vai saindo abre alas para o sofrimento existencial. De onde viemos, quem somos, para onde vamos. E onde estaria e para onde vai o nosso existir. As mesmas pessoas excessivas, com as mesmas novidades. Adoraria um terremoto nesse domingo.
Nasceu o bebê de numero sete milhões. Em algum lugar da Asia, como a maioria dos bebês, presumo. E não estava no churrasco que não existiu. E não foi assado e não há esquecimento total. Abre-se espaço para os problemas de sempre. Acima de tudo, nossa feiúra. Nossa existência feia, calada. A questão maior, a desimportância. Todos substituíveis.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Leitora dos livros alheios
Cheguei a uma conclusão fatídica em minha vida. Não gosto de livrarias. Mil perdões a todos os escritores, aos editores, as gráficas. Nunca passei muito tempo em livrarias, nunca encontrei pessoas em livrarias, mas tampouco havia pensado na razão disto antes.
Hoje, a convite do meu irmão, fui a uma tradicional livraria. Ele estava procurando por um novo livro dessas decalogias que surgem como baratas. Eu, enquanto aguardava, experimentei um desconforto, sem duvida ampliado pelo cansaço de um dia exaustivo. Em outras palavras; fiquei impaciente e não conseguia me distrair folheando os lançamentos. Pela primeira vez, relembrei as inúmeras vezes em que fui a livrarias e não me distrai. Mas por que raios não sou freqüentadora assídua de livrarias?
Eu devoro livros. Tenho a estranha mania de ler vários ao mesmo tempo, para não sentir-me órfã quando acabar. Nesse momento, estou lendo três livros: um católico, um espírita e a biografia do Keith Richards. Dizem-me os amigos que é impossível que eu consiga ler mais de um. Rebato: eu leio sim. Quando uma historia começa a ficar cansativa, mudo de livro, e após descansar, retomo a primeira leitura. Assim, poucas vezes iniciei um livro e o deixei interminado.
Posto isso, eu devia ser figurinha carimbada em livrarias, devia ser conhecida pelos livreiros. Não sou. Compro pouquíssimos livros. Graças a Deus, tenho amigos que cultivam a bibliotecultura e são generosos comigo. Há outro motivo, que em parte explica minha pouca assiduidade em livrarias: gosto de ler algo que me tenha sido indicado. Não porque confie cegamente na filtragem de críticos e dos meus amigos, mas principalmente porque dessa forma terei com quem discutir o tema após a leitura, aquela interação divertida : já chegou na parte em que o fulano muda para a Suazilandia?
Um personagem de Umberto Eco, dono de um sebo, tinha uma imensa biblioteca em casa. Os visitantes, desavisados , sempre o indagavam: o senhor já leu isso tudo? E a resposta era impaciente: claro que não! Se já tivesse lido, por qual razão os guardaria?
Não tenho porque comprar livros. Raramente os leio mais de duas vezes, e quando o faço, o intervalo entre as leituras não justifica a aquisição, somente uma nova ida à biblioteca. Mais uma razão forte seria o quanto gosto do clima de bibliotecas e o quanto desgosto do clima de livrarias. NA biblioteca, se você se interessa pelo livro, pode sentar-se tranquilamente e ler o primeiro capitulo, ou pode perguntar ao bibliotecário, uma pessoa invariavelmente simpática que parece ter lido todos os livros do mundo. Ao arriscar isso numa livraria, além do barulho da seção de CDs, do casal de namorados ocupando o único sofá disponível e do livro estar plastificado, um vendedor aparecera como águia te oferecendo para pesquisar o preço.
Vendedor, querido, literatura não devia ter preço. Eu não vou gastar as palavras.
Continuo então, a espirrar a poeira secular dos bons livros da biblioteca, com suas capas de couro remendadas, com frases grifadas, com anotações de rodapé, faltando a pagina 72 e a ser devolvido em 15 dias. Com sorte, aparece até um dedicado com amor em 1985.
Hoje, a convite do meu irmão, fui a uma tradicional livraria. Ele estava procurando por um novo livro dessas decalogias que surgem como baratas. Eu, enquanto aguardava, experimentei um desconforto, sem duvida ampliado pelo cansaço de um dia exaustivo. Em outras palavras; fiquei impaciente e não conseguia me distrair folheando os lançamentos. Pela primeira vez, relembrei as inúmeras vezes em que fui a livrarias e não me distrai. Mas por que raios não sou freqüentadora assídua de livrarias?
Eu devoro livros. Tenho a estranha mania de ler vários ao mesmo tempo, para não sentir-me órfã quando acabar. Nesse momento, estou lendo três livros: um católico, um espírita e a biografia do Keith Richards. Dizem-me os amigos que é impossível que eu consiga ler mais de um. Rebato: eu leio sim. Quando uma historia começa a ficar cansativa, mudo de livro, e após descansar, retomo a primeira leitura. Assim, poucas vezes iniciei um livro e o deixei interminado.
Posto isso, eu devia ser figurinha carimbada em livrarias, devia ser conhecida pelos livreiros. Não sou. Compro pouquíssimos livros. Graças a Deus, tenho amigos que cultivam a bibliotecultura e são generosos comigo. Há outro motivo, que em parte explica minha pouca assiduidade em livrarias: gosto de ler algo que me tenha sido indicado. Não porque confie cegamente na filtragem de críticos e dos meus amigos, mas principalmente porque dessa forma terei com quem discutir o tema após a leitura, aquela interação divertida : já chegou na parte em que o fulano muda para a Suazilandia?
Um personagem de Umberto Eco, dono de um sebo, tinha uma imensa biblioteca em casa. Os visitantes, desavisados , sempre o indagavam: o senhor já leu isso tudo? E a resposta era impaciente: claro que não! Se já tivesse lido, por qual razão os guardaria?
Não tenho porque comprar livros. Raramente os leio mais de duas vezes, e quando o faço, o intervalo entre as leituras não justifica a aquisição, somente uma nova ida à biblioteca. Mais uma razão forte seria o quanto gosto do clima de bibliotecas e o quanto desgosto do clima de livrarias. NA biblioteca, se você se interessa pelo livro, pode sentar-se tranquilamente e ler o primeiro capitulo, ou pode perguntar ao bibliotecário, uma pessoa invariavelmente simpática que parece ter lido todos os livros do mundo. Ao arriscar isso numa livraria, além do barulho da seção de CDs, do casal de namorados ocupando o único sofá disponível e do livro estar plastificado, um vendedor aparecera como águia te oferecendo para pesquisar o preço.
Vendedor, querido, literatura não devia ter preço. Eu não vou gastar as palavras.
Continuo então, a espirrar a poeira secular dos bons livros da biblioteca, com suas capas de couro remendadas, com frases grifadas, com anotações de rodapé, faltando a pagina 72 e a ser devolvido em 15 dias. Com sorte, aparece até um dedicado com amor em 1985.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
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