Tocou a musica ridícula que ambos odiavam. Ela então, enterneceu. Riu, lembrando de como ele disse: odeio essa musica, mas sabia a letra. E cantava. E ela também sabia e cantava, mas descobriu o quanto odiava a musica após a revelação dele. Odeio.
Quase algo e muito algo. Numa realidade paralela, funcionaria. Os caminhos estavam sempre tangentes. Ele aboborava, ela borboletava. Ou o contrário, tanto faz. Algo. Poderia dizer que se encontrariam novamente. E não ousariam tentar novamente, ou tentariam. O ocorrido era insignificante. A realidade compartilhada era insignificante. A lembrança do que poderia ser era indizível. A falta do que poderia ser era impensável.
segunda-feira, 5 de março de 2012
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Sumidades- A dádiva da merda
O pombo cagou na cabeça da criatura. Mediana, morena, iniciando o dia. Leva, portanto, excretas fartas no centro da cabeça.
Xinga. Palavras feias, indizíveis. Encoleriza. Maldiz o Criador por ter tido a idéia estúpida de permitir que seres voadores caguem. Vantagem evolutiva maldita.
Disfarça e confere se há alguém que possa ter visto a cena. Merda. Merda na cabeça, merda de pombo. Ou pomba, não pode ver. Delicadamente, confere se conseguiria retirar a sujeira. Não, está amolecida como deve ser a merda de pombo.
Decide. Voltará para casa, não há alternativa. Não pode ir trabalhar suja, ficará cheirando o dia inteiro. Além da raiva, claro. Não, definitivamente não terá condições de ir ao trabalho. Irá para casa tomar banho.
Reavalia, considera. Não pode ir trabalhar, mas ir para casa? O dia esta lindo, gostaria de ser um pombo e cagar displicentemente nas cabeças das pessoas. Dia livre, a partir de agora.
Pensa, decide. A pomba libertou-a e o dia agora é uma página em branco, originada da merda.
Vai para a estação e pega o primeiro ônibus para a praia. Lavaraá-se na água do mar, é melhor. E satisfaz-se com a dádiva da merda.
Xinga. Palavras feias, indizíveis. Encoleriza. Maldiz o Criador por ter tido a idéia estúpida de permitir que seres voadores caguem. Vantagem evolutiva maldita.
Disfarça e confere se há alguém que possa ter visto a cena. Merda. Merda na cabeça, merda de pombo. Ou pomba, não pode ver. Delicadamente, confere se conseguiria retirar a sujeira. Não, está amolecida como deve ser a merda de pombo.
Decide. Voltará para casa, não há alternativa. Não pode ir trabalhar suja, ficará cheirando o dia inteiro. Além da raiva, claro. Não, definitivamente não terá condições de ir ao trabalho. Irá para casa tomar banho.
Reavalia, considera. Não pode ir trabalhar, mas ir para casa? O dia esta lindo, gostaria de ser um pombo e cagar displicentemente nas cabeças das pessoas. Dia livre, a partir de agora.
Pensa, decide. A pomba libertou-a e o dia agora é uma página em branco, originada da merda.
Vai para a estação e pega o primeiro ônibus para a praia. Lavaraá-se na água do mar, é melhor. E satisfaz-se com a dádiva da merda.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Eclosão
Por várias vezes na vida, me senti cansada. Em algumas delas, o corpo dava alguns sinais de que não gostava do meu ritmo de vida. Era o sono em horas inadequadas, lentidão em reflexos, falta de coordenação. Provavelmente, era somente o inicio da indignação do meu corpo com o tratamento que recebia . As xícaras de café se multiplicavam. Percebi que estava num momento critico há um ano, quando esqueci um compromisso inadiável. Acabei perdendo minha agenda e com ela, tantos outros compromissos inadiáveis não aconteceram.
E não importava o quanto tentasse me organizar, as minhas faltas e alienações iam piorando, acumulando, ofendendo os atingidos. Você trouxe? Você vai? Por que você não foi? Cadê? Você lembra-se da Cacilda? Não trazia, não ia, não sabia e não lembrava. Olhava no espelho por ser obrigada a trabalhar perfeitamente maquiada por cima de minhas olheiras ancestrais.
Chovia e eu perdia o guarda chuva. Estacionava e tinha de conferir se havia trancado a porta. Saia de casa e voltava para buscar a bolsa.
Acreditei ter chegado ao auge da minha autonegligência expandida ao mundo quando dei seta ao manobrar o carro na garagem de casa. Mas não. Esqueci aniversários queridos, marquei dois encontros para o mesmo horário em bairros diferentes, paguei multas de atraso. Um dia, ia sair de uma sala e bati na porta pelo lado de dentro. Sucessão de atitudes desconexas. Ia me tornando cada vez menos funcional, mais automatizada. O cansaço ia me carcomendo, retirando de mim cada fragmento que me tornava um ser social. Já não sentia. No princípio, eu ainda lutava. Ia buscar o esquecido, pedia desculpas, recompensava, refazia, tentava reorganizar.
Aos poucos, fui me desapegando.
Melhor, fui sendo desapegada. Sai do emprego, oito horas do dia a mais para mim e a libertação do espelho. Vendi o carro, uma prestação a menos para pagar e nenhum bem a zelar. Parei de ir aos grupos: os voluntários, os de oração, as reuniões de condomínio, as ginásticas e a terapia. Abandonei a faculdade e o futuro profissional, e a vida ficou livre para mim. Perdi o celular e cancelei o telefone de casa. Descalça, sai de casa e deixei a chave. Esqueci o nome dos colegas, depois dos amigos, do namorado, dos familiares e por fim, o meu nome. Esquecidos os concretos, os nomes abstratos fugiam. Como não podia deixar de ser, sublimei-me.
E não importava o quanto tentasse me organizar, as minhas faltas e alienações iam piorando, acumulando, ofendendo os atingidos. Você trouxe? Você vai? Por que você não foi? Cadê? Você lembra-se da Cacilda? Não trazia, não ia, não sabia e não lembrava. Olhava no espelho por ser obrigada a trabalhar perfeitamente maquiada por cima de minhas olheiras ancestrais.
Chovia e eu perdia o guarda chuva. Estacionava e tinha de conferir se havia trancado a porta. Saia de casa e voltava para buscar a bolsa.
Acreditei ter chegado ao auge da minha autonegligência expandida ao mundo quando dei seta ao manobrar o carro na garagem de casa. Mas não. Esqueci aniversários queridos, marquei dois encontros para o mesmo horário em bairros diferentes, paguei multas de atraso. Um dia, ia sair de uma sala e bati na porta pelo lado de dentro. Sucessão de atitudes desconexas. Ia me tornando cada vez menos funcional, mais automatizada. O cansaço ia me carcomendo, retirando de mim cada fragmento que me tornava um ser social. Já não sentia. No princípio, eu ainda lutava. Ia buscar o esquecido, pedia desculpas, recompensava, refazia, tentava reorganizar.
Aos poucos, fui me desapegando.
Melhor, fui sendo desapegada. Sai do emprego, oito horas do dia a mais para mim e a libertação do espelho. Vendi o carro, uma prestação a menos para pagar e nenhum bem a zelar. Parei de ir aos grupos: os voluntários, os de oração, as reuniões de condomínio, as ginásticas e a terapia. Abandonei a faculdade e o futuro profissional, e a vida ficou livre para mim. Perdi o celular e cancelei o telefone de casa. Descalça, sai de casa e deixei a chave. Esqueci o nome dos colegas, depois dos amigos, do namorado, dos familiares e por fim, o meu nome. Esquecidos os concretos, os nomes abstratos fugiam. Como não podia deixar de ser, sublimei-me.
domingo, 15 de janeiro de 2012
A agonia do frio
Cada cinza traz questões inadiáveis. Como o fim do mundo, como o fim da vida. Principalmente, as contas que se vencerão. Ou me vencerão, nunca se sabe. Tentando entender.
Tentando pensar e esquecer.
Esquecimento útil, caloroso, morrinhento. Como uma tarde suada, abafada. Como um final de dia, final de churrasco, de piscina. Um dia de exageros e um final de tarde deplorável. A comida embrulha, sente-se um gosto amargo que nada lembra a deliciosa carne de mais cedo. A ressaca em nada se parece com a cerveja gelada e alemã holandesa austriaca de momentos antes. E as pessoas, tão ansiadas pela saudade, são memórias. Devem ter sido vistas e vividas, mas por tempo demais. Nesse tempo além, ficariam mais visíveis, mais humanas, menos importantes do que eu deveria me lembrar. Pequenas demais, humanas, merda. So servem para me atentar ao fato de minha desimportância e de como sou igual a elas.
Não se pode passar tempo demais com nada, cherrie.
O churrasco perdeu o gosto, a bebida incha até a cabeça, sente-se uma pressão indecorosa. Na barriga,inclusive. No fígado, principalmente. Ou seria pâncreas? Desculpa, não me lembro mais onde doiria. E a pele, lastimada pelo sol. Em tons de vermelhos e marrons doloridos e arrependiveis. E as pessoas, e o esquecimento. Tanto abuso, pra quê? Tanto excesso!
Pra quê? A tentativa de esquecimento traz mais forte a sensação de vazio. A murrinha do que vai saindo abre alas para o sofrimento existencial. De onde viemos, quem somos, para onde vamos. E onde estaria e para onde vai o nosso existir. As mesmas pessoas excessivas, com as mesmas novidades. Adoraria um terremoto nesse domingo.
Nasceu o bebê de numero sete milhões. Em algum lugar da Asia, como a maioria dos bebês, presumo. E não estava no churrasco que não existiu. E não foi assado e não há esquecimento total. Abre-se espaço para os problemas de sempre. Acima de tudo, nossa feiúra. Nossa existência feia, calada. A questão maior, a desimportância. Todos substituíveis.
Tentando pensar e esquecer.
Esquecimento útil, caloroso, morrinhento. Como uma tarde suada, abafada. Como um final de dia, final de churrasco, de piscina. Um dia de exageros e um final de tarde deplorável. A comida embrulha, sente-se um gosto amargo que nada lembra a deliciosa carne de mais cedo. A ressaca em nada se parece com a cerveja gelada e alemã holandesa austriaca de momentos antes. E as pessoas, tão ansiadas pela saudade, são memórias. Devem ter sido vistas e vividas, mas por tempo demais. Nesse tempo além, ficariam mais visíveis, mais humanas, menos importantes do que eu deveria me lembrar. Pequenas demais, humanas, merda. So servem para me atentar ao fato de minha desimportância e de como sou igual a elas.
Não se pode passar tempo demais com nada, cherrie.
O churrasco perdeu o gosto, a bebida incha até a cabeça, sente-se uma pressão indecorosa. Na barriga,inclusive. No fígado, principalmente. Ou seria pâncreas? Desculpa, não me lembro mais onde doiria. E a pele, lastimada pelo sol. Em tons de vermelhos e marrons doloridos e arrependiveis. E as pessoas, e o esquecimento. Tanto abuso, pra quê? Tanto excesso!
Pra quê? A tentativa de esquecimento traz mais forte a sensação de vazio. A murrinha do que vai saindo abre alas para o sofrimento existencial. De onde viemos, quem somos, para onde vamos. E onde estaria e para onde vai o nosso existir. As mesmas pessoas excessivas, com as mesmas novidades. Adoraria um terremoto nesse domingo.
Nasceu o bebê de numero sete milhões. Em algum lugar da Asia, como a maioria dos bebês, presumo. E não estava no churrasco que não existiu. E não foi assado e não há esquecimento total. Abre-se espaço para os problemas de sempre. Acima de tudo, nossa feiúra. Nossa existência feia, calada. A questão maior, a desimportância. Todos substituíveis.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
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