segunda-feira, 16 de abril de 2012

Psicólica

Sobre a mesa, o mapa


Sobre o mapa, as cidades

Espalhadas, confusamente mas geográficas

Sobre as cidades, os pinos

Espetados, coloridos

Os pinos estavam antes que eu decidisse ir pra onde eu iria

E eu bem achava que ia

Sem saber se ia. Espetava.

Aliás, quem estava lá antes de ir

Antes de espetar

E antes do mapa existir

Era o pino!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Stuck in a moment

Após anos de rock and roll bem rock rock, me surpreendo ouvindo U2 sem parar. Ou melhor, ouvindo Stuck in a moment sem parar.  Aos treze anos, ganhei um cd do The Strokes. Ouvi umas cinqüenta vezes e decidi que rock era a melhor coisa do mundo. Rejeitei todas as modinhas e no máximo, abria meu coração e meus ouvidos para mpb. No auge da minha rebeldia, U2 era pop demais. Nas duas ultimas semanas, ouço  Stuck in a moment toda vez que paro perto de algum aparelho que possa tocar a musica. Quando estou longe de eletrônicos, cantarolo singela e desafinadamente o refrão.A musica e uma conversa entre dois amigos, onde um questiona o outro sobre estar preso a um problema, e diz que todas as lamentações o levarão a lugar nenhum. Agora, por que me prendi a musica? O motivo e simples. Estamos todos presos em algum momento. Absolutamente todas as pessoas que conheço tem algum assunto pendente. Gasparzinho que não faz a passagem... Marco zero, os amores, a família, o emprego, dinheiro, faculdade... Tantas vezes, mais de uma pedra em cada sapato. A grande questão e: por que não sair desse momento? Grande sabedoria popular: o que não tem solução, solucionado esta. E ponto. O que nos impede de enterrar nossos mortos? Qual a necessidade de ficarmos nos apegando a situações que nos impedem de ir adiante? Quando eu parar de cantar a musica, eu conto!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Daminha frustrada

- Amor, tenho uma coisa para te mostrar.

-Um presente?
-Hum,mais um menos. Na verdade, e só uma surpresa, algo que você vai levar como lembrança, não e material...Um presente da natureza para você.
-Não e um bicho,é? Tenho pavor de bicho!
-Não! Fecha os olhos!
E foram andando pela praça, até chegarem numa frondosa Dama da Noite. O namorado, imponente e feliz. A namorada, ansiosa.
-Amor, chegamos!
-Posso abrir os olhos?
-Ainda não. Você esta sentindo?
-Não, nada demais. O que é para sentir?
-Respira fundo,linda.
(A daminha quase explode após respirar fundo. Perde levemente a paciência.)
-Amor, não senti nada.
-Espera um pouco. Vem andando para esse lado e não abre os olhos ainda.
E a puxa para outro lado da árvore. Engole metade do ar disponível e tampouco sente o bendito cheiro que queria dedicar a namorada. Repete mais duas vezes a tentativa de alcançar o cheiro. E nada.
-Pode abrir. Não deu. Hoje tá ventando pra cima.

segunda-feira, 26 de março de 2012

O choro da outra

Voltava para casa depois de mais um de seus dias vazios. Saia do trabalho que não a motivava para um encontro com o namorado que não amava. E dai, para a casa que nem dela era, onde ninguém a esperava. Ouvindo covers na radio, uma farsa completa. Tentava organizar seus sentimentos, planejar as férias que com a graça de Deus, chegariam. Dirigia displicentemente, o horário tampouco fazia diferença em sua vida. Chegara a um ponto na vida que os atrasos são sempre aceitáveis e todas as presenças em todos os ambientes, dispensáveis. Pessoas esterilizadas, obviamente.


E ia. Pensando superficialmente. Em um mês, sairia do emprego que ocupava ao longo daquele ano. Sentiria saudades? Brevemente, sim. Depois, tudo se apagaria em sua mente. Vida moderna. Yeah. Conseguiria outro emprego, talvez, que a moveria por mais alguns meses, até que se estabilizasse e outra vez, perdesse o significado. E novamente, mudaria, num ciclo continuo e eterno, até que morresse como os que já morreram.

E o namorado? Se casariam em alguns anos, provavelmente. Teriam filhos saudáveis e banais, frívolos como aquela insistência em acreditar no amor, em perseguir a crença no amor. Internamente, sabia que não o amava e que era incapaz de amar. Ele também desconfiava dessa partilha do desamor, mas precisava cumprir com o figurino, ter alguém a seu lado e reproduzir. De qualquer forma, seguiam, teimosamente. E ela seguia, pensando tão somente no jantar do dia.

Viu, fortuitamente. Em seu retrovisor central, viu o rosto da motorista do carro que a seguia. Uma mulher fazia algo parecido com chorar. Contraia o rosto e secava. Lagrimas? Cantava, ria? Falava proibidamente ao telefone? Reduziu a velocidade na tentativa de enxergar melhor a motorista. Abriu sua janela e desejou que ela a ultrapassasse. Chamaria, olharia, buzinaria e a pediria para parar. Para que? Desejou. Desejou. DESEJOU com uma intensidade que há muito não existia em sua vida.

Observava a mulher. Que chorava, incontestável. Incontrolavel. Mesmo reduzindo a velocidade, a outra não a ultrapassava. Dirigia mecanicamente, mais ocupada em resolver a questão do choro.

Questão do choro, merda. Teve vontade de chorar. Ensaiou uma lagrima que mal turvou sua visão. Há quanto não chorava? Há quanto não sentia alegria ou tristeza de intensidade considerável? Resolveu que choraria. Chorou como a outra, veio a primeira lagrima plena, rechonchuda, que escorreu pelo rosto, seguida de varias outras. Rapidamente, soluçava. Já dirigia mecanicamente, também. Lembrava da falta de sobressaltos em sua vida, como era incapaz de chorar como a outra! Parou de desejar e a invejou por ter motivo que a fizesse chorar tanto. Odiou-a.

Ocorreu então que a outra a ultrapassou. Teve então a confirmação: chorava! Seu peito arquejava e toda sua face, bela por sinal, se contraia em dor. Levantava os óculos e tirava as lagrimas que o submergiam. Quase gritou: por que chora?Quer ajuda? Foi impedida pela força de suas próprias lagrimas e de sua inveja. A outra a viu, então. Num tempo milesimal, encararam-se, as mulheres que choravam juntas. A outra distraiu-se com o choro alheio e a olhou cúmplice, engraçada. Ambas chorando no trânsito, que maluquice! E retornou a seu choro, soluçando. Ela, então, pode ler na outra todo um sofrimento, e assustou-se: era amor. A outra amava. Odiou-a mais tanto que seu choro aprofundou-se. Gostaria de amar para ser capaz de chorar. Não mais queria resolver a outra, era que era feliz, que era capaz de amar e de chorar.

Seguiram, ambas, levemente modificadas pelo choro alheio. Uma, no seu realismo estéril. A outra na sua humanidade sofrível. Ambas, chorando.

segunda-feira, 19 de março de 2012