segunda-feira, 21 de maio de 2012

Bia


Não posso dizer que descuido permitiu que a pequena viesse e sentasse em meu colo. Veio rápida, descomposta, com um cheiro doce e agradável de suor conquistado em brincadeiras. Estremeci , atônita com tal absurdo. Com o olhar tentei dizer: ‘Não venha, não sei como segurar uma criança’. As palavras me faltaram, os gestos não vieram. Ajeitou-se e aninhou seus piolhos em meu peito. Ainda tentei pensar fortemente: ’Não posso, estou ocupada, saia’. Não saiu. Pequena, suja e pacífica, aconchegou-se. Uma vez mais, tentei me desfazer daquela condição, uma vez mais a petiz coube em mim, ocupou um jeito de corpo que eu não sabia que tinha.

Eu diria: Como segurar uma criança? O que oferecer a ela? O que ela quer? Saia! Não sou sua mãe, estou ocupada, há muito que fazer. Tenho pressa, tenho objetivos, não tenho docilidade a gastar nesse momento. Não posso deixar que me vejam com uma criança no colo. Que vão pensar? Ora, é uma desleixada, passa horas com as crianças e não cumpre suas tarefas! E caso me vejam e se enterneçam? Como explicar por que essa pequena veio a mim? O que fiz por ela? Que ternura ofereço eu ao mundo? E o mundo caberia em meu colo?

A pequena, alheia a mim em sua necessidade de carinho, dormiu.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Declaração de óbito de uma flor




Morreu hoje, novedemaiodedoismiledoze, às dezesseis horas e dois minutos, uma flor. Chamava-se Flor, tinha seis meses de idade e morreu de causas naturais. A cuidadora assistente informou que Flor vinha agonizando há duas semanas, foi transfundida e transplantada de vaso, mas não resistiu às sérias decepções que vinha sofrendo. Foi plantada por japoneses, cresceu rósea e sua única pretensão era viver incólume de amor. Viveu por dez dias numa estufa, próximo à soberba sessão das orquídeas, numa felicidade débil e plena. Fortuitamente, foi adotada por um descuidado e chegou a essa residência com promessas de crescimento e prosperidade. Era vizinha de uma samambaia e recebia o Sol todas as manhãs. Flor floriu uma vez, mas não deixou herdeiros. Os japoneses informaram que não estarão presentes no enterro. Tenhamos compaixão desse ser que veio como emblema sentimental e parte como esterco.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Felicidade exponencial

Tocou uma música muito bonita. Meu coração disse para a tristeza: já é hora de parar .Tive, então, vontade de sair dançando. Olharia para o motorista do ônibus e diria: Pára aqui, moço, que vou dançar. Convidaria o trocador e todos os passageiros e desceríamos ali mesmo. Íamos dançar suavemente, no meio do viaduto, pensando que os postes eram árvores.


Suavemente, os pés tocando o asfalto o chamariam: vamos, asfalto, dance! O asfalto assentiria e ondularia, de leve, para não assustar ninguém. Ondularia o suficiente para agitar árvores e os pássaros mais próximos, criando uma leve melodia.

Eu, os passageiros, o trocador e o motorista, dançando, pulando, girando... De forma delicada e caótica, no meio do asfalto.

O senhorzinho acamado diria a esposa: ‘Me ajude, mulher, que tenho de dançar.’

A mãezinha apressada diria aos seus pequenos: ‘Hoje não tem aula, vamos dançar.’

O bêbado diria à sua garrafinha redonda: ‘Venha, dance comigo!’

A fome dos mendigos embaixo do viaduto daria uma trégua e eles viriam. O dinheiro dos empresários se faria insignificante, eles largariam os paletós e viriam. As nuvens cinzentas se espalhariam, criando uma sombra tênue.

Em pouco tempo, seriamos uma multidão. Os pães do padeiro diriam: vá dançar. Os jornais da banca se espalhariam, dançando conosco. O próprio jornaleiro sorriria e viria.

Outros ônibus, incapazes de passar, parariam e nos cederiam mais pares. Os celulares cairiam, as bolsas cairiam. A dor de cada coração seria incluída naquele éter, naquela brisa que nos envolvia.

Olharíamos um para o outro com tanta cumplicidade e com uma alegria tão verdadeira que não seria preciso sorrir.

E Deus lá de cima diria: ‘Veja como são belos meus filhos’. E nos mandaria a primavera para dançar conosco.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Psicólica

Sobre a mesa, o mapa


Sobre o mapa, as cidades

Espalhadas, confusamente mas geográficas

Sobre as cidades, os pinos

Espetados, coloridos

Os pinos estavam antes que eu decidisse ir pra onde eu iria

E eu bem achava que ia

Sem saber se ia. Espetava.

Aliás, quem estava lá antes de ir

Antes de espetar

E antes do mapa existir

Era o pino!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Stuck in a moment

Após anos de rock and roll bem rock rock, me surpreendo ouvindo U2 sem parar. Ou melhor, ouvindo Stuck in a moment sem parar.  Aos treze anos, ganhei um cd do The Strokes. Ouvi umas cinqüenta vezes e decidi que rock era a melhor coisa do mundo. Rejeitei todas as modinhas e no máximo, abria meu coração e meus ouvidos para mpb. No auge da minha rebeldia, U2 era pop demais. Nas duas ultimas semanas, ouço  Stuck in a moment toda vez que paro perto de algum aparelho que possa tocar a musica. Quando estou longe de eletrônicos, cantarolo singela e desafinadamente o refrão.A musica e uma conversa entre dois amigos, onde um questiona o outro sobre estar preso a um problema, e diz que todas as lamentações o levarão a lugar nenhum. Agora, por que me prendi a musica? O motivo e simples. Estamos todos presos em algum momento. Absolutamente todas as pessoas que conheço tem algum assunto pendente. Gasparzinho que não faz a passagem... Marco zero, os amores, a família, o emprego, dinheiro, faculdade... Tantas vezes, mais de uma pedra em cada sapato. A grande questão e: por que não sair desse momento? Grande sabedoria popular: o que não tem solução, solucionado esta. E ponto. O que nos impede de enterrar nossos mortos? Qual a necessidade de ficarmos nos apegando a situações que nos impedem de ir adiante? Quando eu parar de cantar a musica, eu conto!