Doi, doi, doi
Incomoda, arranha, coça, arde
Ainda que eu me cortasse
A dor da alma continuaria
A dor maior é essa colica do vazio
dos abraços sabidamente carinhosos
da companhia aérea, efêmera,
da sua não-presença ao meu lado.
Eu adoraria que nesse momento a sua falta não estivesse aqui.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Leitora dos livros alheios
Cheguei a uma conclusão fatídica em minha vida. Não gosto de livrarias. Mil perdões a todos os escritores, aos editores, as gráficas. Nunca passei muito tempo em livrarias, nunca encontrei pessoas em livrarias, mas tampouco havia pensado na razão disto antes.
Hoje, a convite do meu irmão, fui a uma tradicional livraria. Ele estava procurando por um novo livro dessas decalogias que surgem como baratas. Eu, enquanto aguardava, experimentei um desconforto, sem duvida ampliado pelo cansaço de um dia exaustivo. Em outras palavras; fiquei impaciente e não conseguia me distrair folheando os lançamentos. Pela primeira vez, relembrei as inúmeras vezes em que fui a livrarias e não me distrai. Mas por que raios não sou freqüentadora assídua de livrarias?
Eu devoro livros. Tenho a estranha mania de ler vários ao mesmo tempo, para não sentir-me órfã quando acabar. Nesse momento, estou lendo três livros: um católico, um espírita e a biografia do Keith Richards. Dizem-me os amigos que é impossível que eu consiga ler mais de um. Rebato: eu leio sim. Quando uma historia começa a ficar cansativa, mudo de livro, e após descansar, retomo a primeira leitura. Assim, poucas vezes iniciei um livro e o deixei interminado.
Posto isso, eu devia ser figurinha carimbada em livrarias, devia ser conhecida pelos livreiros. Não sou. Compro pouquíssimos livros. Graças a Deus, tenho amigos que cultivam a bibliotecultura e são generosos comigo. Há outro motivo, que em parte explica minha pouca assiduidade em livrarias: gosto de ler algo que me tenha sido indicado. Não porque confie cegamente na filtragem de críticos e dos meus amigos, mas principalmente porque dessa forma terei com quem discutir o tema após a leitura, aquela interação divertida : já chegou na parte em que o fulano muda para a Suazilandia?
Um personagem de Umberto Eco, dono de um sebo, tinha uma imensa biblioteca em casa. Os visitantes, desavisados , sempre o indagavam: o senhor já leu isso tudo? E a resposta era impaciente: claro que não! Se já tivesse lido, por qual razão os guardaria?
Não tenho porque comprar livros. Raramente os leio mais de duas vezes, e quando o faço, o intervalo entre as leituras não justifica a aquisição, somente uma nova ida à biblioteca. Mais uma razão forte seria o quanto gosto do clima de bibliotecas e o quanto desgosto do clima de livrarias. NA biblioteca, se você se interessa pelo livro, pode sentar-se tranquilamente e ler o primeiro capitulo, ou pode perguntar ao bibliotecário, uma pessoa invariavelmente simpática que parece ter lido todos os livros do mundo. Ao arriscar isso numa livraria, além do barulho da seção de CDs, do casal de namorados ocupando o único sofá disponível e do livro estar plastificado, um vendedor aparecera como águia te oferecendo para pesquisar o preço.
Vendedor, querido, literatura não devia ter preço. Eu não vou gastar as palavras.
Continuo então, a espirrar a poeira secular dos bons livros da biblioteca, com suas capas de couro remendadas, com frases grifadas, com anotações de rodapé, faltando a pagina 72 e a ser devolvido em 15 dias. Com sorte, aparece até um dedicado com amor em 1985.
Hoje, a convite do meu irmão, fui a uma tradicional livraria. Ele estava procurando por um novo livro dessas decalogias que surgem como baratas. Eu, enquanto aguardava, experimentei um desconforto, sem duvida ampliado pelo cansaço de um dia exaustivo. Em outras palavras; fiquei impaciente e não conseguia me distrair folheando os lançamentos. Pela primeira vez, relembrei as inúmeras vezes em que fui a livrarias e não me distrai. Mas por que raios não sou freqüentadora assídua de livrarias?
Eu devoro livros. Tenho a estranha mania de ler vários ao mesmo tempo, para não sentir-me órfã quando acabar. Nesse momento, estou lendo três livros: um católico, um espírita e a biografia do Keith Richards. Dizem-me os amigos que é impossível que eu consiga ler mais de um. Rebato: eu leio sim. Quando uma historia começa a ficar cansativa, mudo de livro, e após descansar, retomo a primeira leitura. Assim, poucas vezes iniciei um livro e o deixei interminado.
Posto isso, eu devia ser figurinha carimbada em livrarias, devia ser conhecida pelos livreiros. Não sou. Compro pouquíssimos livros. Graças a Deus, tenho amigos que cultivam a bibliotecultura e são generosos comigo. Há outro motivo, que em parte explica minha pouca assiduidade em livrarias: gosto de ler algo que me tenha sido indicado. Não porque confie cegamente na filtragem de críticos e dos meus amigos, mas principalmente porque dessa forma terei com quem discutir o tema após a leitura, aquela interação divertida : já chegou na parte em que o fulano muda para a Suazilandia?
Um personagem de Umberto Eco, dono de um sebo, tinha uma imensa biblioteca em casa. Os visitantes, desavisados , sempre o indagavam: o senhor já leu isso tudo? E a resposta era impaciente: claro que não! Se já tivesse lido, por qual razão os guardaria?
Não tenho porque comprar livros. Raramente os leio mais de duas vezes, e quando o faço, o intervalo entre as leituras não justifica a aquisição, somente uma nova ida à biblioteca. Mais uma razão forte seria o quanto gosto do clima de bibliotecas e o quanto desgosto do clima de livrarias. NA biblioteca, se você se interessa pelo livro, pode sentar-se tranquilamente e ler o primeiro capitulo, ou pode perguntar ao bibliotecário, uma pessoa invariavelmente simpática que parece ter lido todos os livros do mundo. Ao arriscar isso numa livraria, além do barulho da seção de CDs, do casal de namorados ocupando o único sofá disponível e do livro estar plastificado, um vendedor aparecera como águia te oferecendo para pesquisar o preço.
Vendedor, querido, literatura não devia ter preço. Eu não vou gastar as palavras.
Continuo então, a espirrar a poeira secular dos bons livros da biblioteca, com suas capas de couro remendadas, com frases grifadas, com anotações de rodapé, faltando a pagina 72 e a ser devolvido em 15 dias. Com sorte, aparece até um dedicado com amor em 1985.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Logica barroca
Matei quatro louva- Deus
Ainda sobra um, sobra barulho
Poderiam ser louva-deuses...
Ainda assim, mereceriam a morte se fossem pagaos?
E se os quatro fossem louva-Deus
E me sobrou apenas um louva-deuses?
Como me livrar da duvida, se ja pequei?
O ultimo se aproxima, vou mata-lo...
Nao, esse nao! Talvez haja tempo de converte-lo.
Ainda sobra um, sobra barulho
Poderiam ser louva-deuses...
Ainda assim, mereceriam a morte se fossem pagaos?
E se os quatro fossem louva-Deus
E me sobrou apenas um louva-deuses?
Como me livrar da duvida, se ja pequei?
O ultimo se aproxima, vou mata-lo...
Nao, esse nao! Talvez haja tempo de converte-lo.
terça-feira, 15 de junho de 2010
A atéia
Saiu do hospital às duas em ponto, lembrou que o bandejão estaria fechado. "Droga-o almoço por aqui é caro.". Fazer o quê, essa aula na hora do almoço deixava sua tarde livre, e ela quase nunca a usava para estudar mesmo. Resolveu andar mais para o centro da cidade, por lá encontraria um bom PF (oba,ovo!) custando uns cinco reais. Dobrou numa rua qualquer (Bahia?Tupis?) e subiu até o primeiro restaurante que encontrou, as portas estavam se fechando.Só então reparou na estranha quietude da cidade, estava tudo silencioso demais para um dia útil, nada de confusão de carros, motos e pedestres. Dirigiu-se a um rapaz de avental- devia trabalhar no restaurante.
-Moço, não tem como eu almoçar não?- falou com a voz doce, usando o maior charme possível a alguém faminto.
-Desculpe, estamos fechando, é tarde.-respondeu o insensível, quase ríspido.
-Ah, tudo bem. Onde fica a lanchonete mais próxima?
-Olha, você pode até andar até o shopping, mas nada estará aberto.
-Como assim?-já não era a voz doce, era a revolta de um estômago doído.
O moço arregalou os olhos e sumiu dentro do restaurante. Ao mesmo tempo, disparou uma sirene ensurdecedora e surgiram policiais. Não um,mas três. E viaturas, quatro delas fechando a passagem da moça faminta, agora assustada.
-Mocinha, você vem conosco agora.-fala um deles, não saberia dizer qual, não só pelo seu espanto,mas eram todos iguais. O policial falou sério, com firmeza, segurou-a pelo braço e foi conduzindo-a à uma das viaturas.
-Mas....?
-Sem mas nem meio mas!-estava realmente alterado- esses adolescentes, onde já se viu? Por isso que não tive filhos! A senhora fique calada!
Obedeceu, claro. Não ia discutir com três homens que eram duas vezes seu tamanho. O que teria feito? Foi jogada no banco de trás, entre dois deles. Ninguém falava, ninguém olhava. Quando alguém explicaria a ela o que estava acontecendo? Olha para o relógio, são duas e meia. Ouve outra sirene. Segunda sirene, começa a ouvir sons distantes, indefinidos, olha pela janela e vê pessoas saindo dos prédios- várias delas, carregando caixas, montando coisas. Terceira sirene: as pessoas estavam enfeitando as ruas!E o burburinho das pessoas ia ficando mais intenso, mais nervoso- nervosamente alegre, como um baile de papagaios.
-Quando chegarmos, levem-na direto para a cela 22. Precisamos nos apressar.
Presa, sério? Por quê, afinal? Sem coragem de falar, de perguntar, estava com medo, os policiais estavam ficando mais agitados. Estacionaram em frente a uma delegacia, três deles saíram correndo e o quarto a puxou:
-Vamos. Você não vai estragar o jogo de ninguém, nem o meu.
-Que jogo?
Melhor que não tivesse perguntado.
-Como ousa?-e a empurrou com mais brutalidade, obrigando-a a andar mais rápido.
Foi adentrando a delegacia, ainda perplexa. Presa? Jogo? E o estômago, que ainda reclamava,esquecido? Chegaram a cela 22, onde havia uma velha com um radinho.
-Você fica aí. Amanhã o Doutor Limeira cuida de você, melhor se comportar: o bicho está feio pro seu lado.
-E ninguém me explica nada? Quero falar com minha mãe, ela vai ficar preocupada!E estou com fome!
-Quieta.-falou firme, definitivamente. E virou-se para a velha, já saindo apressado: Ela é atéia, cuidado.
-Como assim atéia? Sou católica,volte aqui!
-Menina, menina, cala! De onde você é?-perguntou a velha, serenamente.
-De Bom Despacho, me explica o que está acontecendo-num tom de súplica.
A velha tirou algo de uma sacola parda: Explico, mas primeiro come. Ainda bem que guardei essa mexerica do café da manhã. E acalma. Você é mesmo atéia? Não sabe que hoje é o primeiro jogo do Brasil na Copa?
-Hã?Não mesmo. Joguei vôlei na minha cidade,mas nunca fui ligada a futebol.
-Shhhhhh!Não repete isso nem em pensamento. Aqui na capital as leis são mais rígidas em relação ao futebol. É melhor para você ficar aqui até o fim da Copa, porque se te pegam duas vezes, é pior, acredite. Falo de tortura,sabe. Estou aqui há seis anos. Na Copa passada foi feio, ficaram agressivos quando o Brasil perdeu, nem queira ver. Se o time estiver indo bem, não colocam a mão em você, torça por isso. Para sua sobrevivência, você tem de aprender a escalação, as regras e os adversários- todos eles. Não adianta saber só dos times grandes. Deixa eu lembrar o que mais...
Desconcertada era pouco. Sabia que o futebol era a paixão nacional, achava o Kaká bonito,mas só isso, não se interessava. Agora, tortura?Que tipo de tortura? Nem sabia explicaro que faz um ponta...
-Ah! Você TEM de torcer, senão fica aqui por mais tempo obrigada a ouvir o Galvão o tempo inteiro. Pode até usar palavrões, ajuda um pouco a extravazar essa farsa toda. Vou te ensinando, porque o doutor Limeira é carrasco, faz muitas perguntas e se você não sabe...Bem, não entrarei em detalhes, melhor que não passe por isso.
Ficou tonta. Atônita. Tonta. Estonteada. Esfomeada. Escotomas: verdes, amarelos, verdes, verdes. Tombou.
-Mariana? Acorda, Mariana. Estamos indo para casa ver o jogo, vamos?
Levantou a cabeça, olhou o relógio: uma e dez. Estava na biblioteca, adormeceu lendo e tinha perdido a aula.
-Jogo?Estou indo almoçar,odeio futebol.
-Moço, não tem como eu almoçar não?- falou com a voz doce, usando o maior charme possível a alguém faminto.
-Desculpe, estamos fechando, é tarde.-respondeu o insensível, quase ríspido.
-Ah, tudo bem. Onde fica a lanchonete mais próxima?
-Olha, você pode até andar até o shopping, mas nada estará aberto.
-Como assim?-já não era a voz doce, era a revolta de um estômago doído.
O moço arregalou os olhos e sumiu dentro do restaurante. Ao mesmo tempo, disparou uma sirene ensurdecedora e surgiram policiais. Não um,mas três. E viaturas, quatro delas fechando a passagem da moça faminta, agora assustada.
-Mocinha, você vem conosco agora.-fala um deles, não saberia dizer qual, não só pelo seu espanto,mas eram todos iguais. O policial falou sério, com firmeza, segurou-a pelo braço e foi conduzindo-a à uma das viaturas.
-Mas....?
-Sem mas nem meio mas!-estava realmente alterado- esses adolescentes, onde já se viu? Por isso que não tive filhos! A senhora fique calada!
Obedeceu, claro. Não ia discutir com três homens que eram duas vezes seu tamanho. O que teria feito? Foi jogada no banco de trás, entre dois deles. Ninguém falava, ninguém olhava. Quando alguém explicaria a ela o que estava acontecendo? Olha para o relógio, são duas e meia. Ouve outra sirene. Segunda sirene, começa a ouvir sons distantes, indefinidos, olha pela janela e vê pessoas saindo dos prédios- várias delas, carregando caixas, montando coisas. Terceira sirene: as pessoas estavam enfeitando as ruas!E o burburinho das pessoas ia ficando mais intenso, mais nervoso- nervosamente alegre, como um baile de papagaios.
-Quando chegarmos, levem-na direto para a cela 22. Precisamos nos apressar.
Presa, sério? Por quê, afinal? Sem coragem de falar, de perguntar, estava com medo, os policiais estavam ficando mais agitados. Estacionaram em frente a uma delegacia, três deles saíram correndo e o quarto a puxou:
-Vamos. Você não vai estragar o jogo de ninguém, nem o meu.
-Que jogo?
Melhor que não tivesse perguntado.
-Como ousa?-e a empurrou com mais brutalidade, obrigando-a a andar mais rápido.
Foi adentrando a delegacia, ainda perplexa. Presa? Jogo? E o estômago, que ainda reclamava,esquecido? Chegaram a cela 22, onde havia uma velha com um radinho.
-Você fica aí. Amanhã o Doutor Limeira cuida de você, melhor se comportar: o bicho está feio pro seu lado.
-E ninguém me explica nada? Quero falar com minha mãe, ela vai ficar preocupada!E estou com fome!
-Quieta.-falou firme, definitivamente. E virou-se para a velha, já saindo apressado: Ela é atéia, cuidado.
-Como assim atéia? Sou católica,volte aqui!
-Menina, menina, cala! De onde você é?-perguntou a velha, serenamente.
-De Bom Despacho, me explica o que está acontecendo-num tom de súplica.
A velha tirou algo de uma sacola parda: Explico, mas primeiro come. Ainda bem que guardei essa mexerica do café da manhã. E acalma. Você é mesmo atéia? Não sabe que hoje é o primeiro jogo do Brasil na Copa?
-Hã?Não mesmo. Joguei vôlei na minha cidade,mas nunca fui ligada a futebol.
-Shhhhhh!Não repete isso nem em pensamento. Aqui na capital as leis são mais rígidas em relação ao futebol. É melhor para você ficar aqui até o fim da Copa, porque se te pegam duas vezes, é pior, acredite. Falo de tortura,sabe. Estou aqui há seis anos. Na Copa passada foi feio, ficaram agressivos quando o Brasil perdeu, nem queira ver. Se o time estiver indo bem, não colocam a mão em você, torça por isso. Para sua sobrevivência, você tem de aprender a escalação, as regras e os adversários- todos eles. Não adianta saber só dos times grandes. Deixa eu lembrar o que mais...
Desconcertada era pouco. Sabia que o futebol era a paixão nacional, achava o Kaká bonito,mas só isso, não se interessava. Agora, tortura?Que tipo de tortura? Nem sabia explicaro que faz um ponta...
-Ah! Você TEM de torcer, senão fica aqui por mais tempo obrigada a ouvir o Galvão o tempo inteiro. Pode até usar palavrões, ajuda um pouco a extravazar essa farsa toda. Vou te ensinando, porque o doutor Limeira é carrasco, faz muitas perguntas e se você não sabe...Bem, não entrarei em detalhes, melhor que não passe por isso.
Ficou tonta. Atônita. Tonta. Estonteada. Esfomeada. Escotomas: verdes, amarelos, verdes, verdes. Tombou.
-Mariana? Acorda, Mariana. Estamos indo para casa ver o jogo, vamos?
Levantou a cabeça, olhou o relógio: uma e dez. Estava na biblioteca, adormeceu lendo e tinha perdido a aula.
-Jogo?Estou indo almoçar,odeio futebol.
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